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Dia 2 de Fevereiro: dois acontecimentos!

P. Flávio Furtado
flafur@live.com.pt

Caríssimos amigos (as), confrades e família,
Como missionário do Espírito Santo que sou, não podia deixar de partilhar convosco, dois acontecimentos vividos por nós espiritanos, aqui na Bolívia no passado dia 2 de Fevereiro.
O primeiro acontecimento não é novidade para vós, pois trata-se da comemoração do 158º aniversário da morte de Libermann, o segundo fundador da Congregação do Espírito Santo. Aqui na Bolívia, a nossa comunidade de Cláudio Poullart Des Places teve o seu momento especial na oração da manhã às 8h30m, na capela, onde pedimos a intercessão do nosso venerável padre Libermann, para todos nós espiritanos, doentes e sãos e para todos os movimentos espiritanos.
No final da tarde associámo-nos aos diocesanos e religiosos na Sé Catedral para a Eucaristia da solenidade da apresentação do Senhor. Quinze minutos antes da Eucaristia, o meu colega espiritano, padre Marco, fez a apresentação de dois espiritanos aos padres e aos bispos: um era eu e o outro, o aniversariante Padre Libermann. No entanto, naquele encontro fraternal, o foco de atenção centrava-se nele, padre Marco, por ter aparecido na televisão, no jornal da tarde desse mesmo dia.
Querem saber porquê? - Então prepararem-se porque trata-se de um acontecimento que toca a sensibilidade a qualquer ser humano.
Por volta das 9h30 da manhã do dia 2 de Fevereiro, eu e o padre Marco saímos para uma celebração das exéquias num dos bairros da nossa paróquia. No caminho ele disse-me com muita emoção que se tratava do funeral de uma senhora miserável.
Ao chegarmos ao destino, encontrámos pouco mais de uma dúzia de pessoas à frente de uma favela de lata, anexa a uma casa bem pintada. Seis deles eram filhos da falecida, totalmente abandonados! A filha mais velha, a Célia, levou-nos até à favela, onde se encontrava o corpo de sua mãe, Guadalupe, dentro de um pobre caixão ornamentado apenas com um vaso de flor artificial. Infelizmente faltava muita coisa: dinheiro para comprar um pedaço de terreno para a sepultura do corpo; uma vela pelo menos; umas flores naturais mas sobretudo os familiares e mais pessoas para unir a sua voz àquela celebração.
No diálogo com a filha mais velha de 17 anos descobrimos que a mãe era uma “caseira” viúva que morre aos 38 anos, vítima de tuberculose, sem meios para cuidar da sua saúde, nem sequer para garantir a educação escolar dos filhos, muito menos para a sua alimentação equilibrada. Deixa seis filhos órfãos, a mais nova, Maria Celeste, com dois anos de idade.
Situação tão crítica que obrigava os adolescentes a trabalhar das 7h da tarde às 11h da noite numa pensão, a fim de sustentar a família, para trazerem 40 bolivianos por dia (o equivalente a 4 €). Daí que foi necessário chamar a televisão para dar a conhecer esta miséria escondida: uma favela de lata com apenas um colchão que servia para toda a família, uma televisão para passarem tempo e as crianças desamparadas, sem condições para sepultar a mãe.
Da minha parte não podendo fazer mais nada, dei-lhes uma palavra de ânimo e de esperança. Muito entristecido entrei no carro sozinho, reflectindo profundamente sobre aquela situação dramática. De repente, ouvi um forte clamor: “Caridade! Caridade! Cuidem dessas crianças abandonadas, são os pobres do reino dos céus!”
Era o clamor do meu colega, padre Marco, aos vizinhos que se encontravam sentados lá fora enquanto estávamos nas cerimónias. Por conseguinte, aquele forte clamor pôs-me de imediato em sintonia com o venerável padre Libermann, que antes de morrer deixa-nos o mesmo apelo: “Caridade! Caridade por Jesus Cristo! Sacrifício por Jesus Cristo! “
De um momento para outro aquelas crianças que cresceram no canto da favela viram-se rodeadas por gestos de caridade:
- Uma pessoa cristã ofereceu um cantinho na campa da sua família para enterrar a mãe Guadalupe, visto que os filhos não tinham dinheiro para comprar o terreno conforme exige a cultura.
- Dois dias depois conseguiram-se duas instituições de caridade para tomar conta de todas elas; distribuídas pela instituição feminina, a Célia e a Maria Celeste, e na masculina: o João Carlos, o Jail Fernando, o José Juventina e o Roman.
- Passados alguns dias fomos visitá-los e encontrámos alguns deles já a estudar com uma alegria que nos contagiou, levando-me a pensar seriamente nesta expressão do Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, especialmente dos pobres e todos aqueles que sofrem são também as alegrias e as esperanças… dos discípulos de Cristo” ( GS1).
Estimado(a) amigo (a), é doloroso quando estamos à frente de uma situação destas, sem saber o que fazer, mas é esperançoso quando lutamos com sacrifício e confiamos na providência divina. Assim fez o meu colega, contactou todas as instituições de caridade em Santa Cruz e finalmente conseguiu, embora contra a vontade de alguns vizinhos: alguns chegaram a dizer que ele nem sequer era boliviano!

É desta maneira que, estimulados pelo testemunho dos nossos fundadores, os missionários espiritanos vão escutando no dia - a dia o grito de Cristo nos pobres dos mais pobres. Nesta missão não estamos sós, pois há sempre uma Verónica, como foi o caso de duas senhoras cristãs da comunidade que estiveram do nosso lado e ao lado daqueles pobres do Reino.
E vós, quereis juntar a nós o vosso grito de oração?
Boa Quaresma. Estamos unidos em oração.

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Publicado em www.espiritanos.org a 3/3/2010 4:13:07 AM.

 

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