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Daniel Brottier
(1876-1936)

Como Tiago Laval, também ele foi beatificado pela Igreja. Da sua vida e obra podem-se destacar diversas facetas que o tornam um grande homem da Igreja: Foi heróico capelão durante a segunda grande guerra, foi missionário empreendedor no Senegal e é sobretudo conhecido e admirado pela forma como se dedicou, nos últimos anos da sua vida, à obra dos órfãos de Auteuil.

A 25 de Novembro de 1984, João Paulo II declarava beato o Padre Daniel Brottier, missionário da Congregação do Espírito Santo.

Nascido em Blois (França) a 07 de Setembro de 1876 e falecido em Paris a 28 de Fevereiro de 1936, o Padre Brottier é conhecido por várias facetas e realizações importantes de sua vida. O seu grande desejo era ser missionário e consagrar a sua vida à África. Deu largas ao seu zelo missionário no Senegal. Em Dakar, levantou a grande Catedral do Memorial Africano.

Capelão lendário, arrojado e ponderado, corajoso e prudente, amigo e confidente de oficiais e soldados, na Guerra Mundial de 1914 a 1918, recebeu as condecorações "Oficial da Legião de Honra" e "Cruz de Guerra". Mas foi sobretudo como "Pai dos Órfãos" que o seu nome se tornou conhecido e admirado. Tendo sido nomeado Director da obra dos Órfãos de Auteuil pelo próprio Cardeal de Paris. O Padre Brottier dedicou a esta obra os últimos 13 anos da sua vida. O Padre Brottier era um homem bondoso, um educador nato, que depressa conquistava a confiança dos rapazes. A sua porta estava sempre aberta dia e noite a quem chegava e, embora as capacidades de Auteuil fossem reduzidas, ele nunca tinha a coragem de mandar alguém embora.

Catedral do Memorial Africano

A ideia de D. Jalabert, também ele da Congregação do Espírito Santo, e na altura Bispo de Dakar (Senegal) era de elevar um lugar de culto digno deste nome, não um qualquer, pois se trata de uma catedral, e converter esta casa de Deus em homenagem a todos aqueles que, a qualquer título, deram as suas forças, o sangue e a vida, à causa de África, ao serviço dos africanos.

O Padre Brottier acaba de regressar a França. O mau estado da sua saúde condena-o a deixar a África. Definitivamente.

D. Jalabert conhece perfeitamente o Padre Brottier. Sabe que ele poderá levar a bom termo, em França, este projecto. Nomeia-o, pois, Vigário Geral de Dakar, com residência em Paris , e director da Catedral - Monumento. O Padre Brottier entra com entusiasmo no jogo do seu bispo; mesmo em França, cumprirá uma tarefa exclusivamente missionária.

Mais uma vez, o Padre Brottier lança toda a sua energia no novo apostolado. Organiza um Secretariado, instala um serviço de relações públicas, que indigna os seus confrades mais zelosos, envolve no projecto um conjunto de personalidades, mas, sobretudo, comunica uma alma a esta obra, a que os cristãos de França não podem ficar insensíveis. Ao fim de alguns meses de trabalho persistente, uma rede de amigos seguros se desenha e cobre progressivamente toda a França.

Durante sete anos, em dois períodos, de 1911 a 1914 e de 1919 a 1923, o Padre Brottier consagra o essencial das suas forças à Catedral - Monumento.

Este projecto revela-se um campo de acção especialmente preparado pela Providência para por em relevo as qualidades e virtudes do Padre Brottier. A sua fé invencível e o seu espírito missionário mobilizam as suas notáveis qualidades humanas. De novo o Padre Brottier consagra toda a riqueza da sua personalidade ao serviço duma missão à sua altura. Conduz a termo o sonho de D. Jalabert: a 2 de Fevereiro de 1936, a Catedral de Dakar é consagrada pelo Cardeal Verdier, legado do Papa. Um grande ausente nesta cerimónia - o Padre Brottier. Prefere ficar alheio a estas horas de glória; contenta-se com dirigir urna comovente mensagem aos órfãos de Auteuil reunidos à sua volta para o festejar.

«Meus amigos, 
Não encontro palavras para exprimir o meu reconhecimento pela grande surpresa que me fizestes esta manhã. Comoveu-me profundamente. Esta festa íntima e familiar dá-me mais alegria, mais felicidade do que se eu tivesse acompanhado o Cardeal a Dakar. Digo-vos, meus amigos, a felicidade encontro-a entre vós. Sim, sois vós que me fazeis feliz! E se, ao começar os meus vinte e cinco anos de trabalho pela Catedral -Monumento, me tivesse sido dado conhecer a alegria que vós me dais neste momento, isso me bastaria. Muitos se admiraram de eu não ter ido a Dakar, à busca de alguns louros. Já não estou na idade em que se buscam as honras humanas. E, a propósito de Dakar, posso-vos afirmar que nem um só momento pensei na glória humana. Devemos ver em tudo o amor de Deus, que fez coincidir os acontecimentos para a realização da sua maior glória. Porque, meus filhos, se não fosse D. Jalabert e a Catedral de Dakar, não existiria a capela de Santa Teresinha. Eu não estaria aqui. Nem vós, meus queridos fi1hos... E por isso que, enquanto tivermos um sopro de vida, devemos bendizer a Deus e cantar depois eternamente as misericórdias do Senhor.»

Nesta mensagem destinada aos seus filhos, vinte e seis dias antes da sua morte, transparece a bela e magnífica alma do Padre Brottier: apagamento pessoal e abnegação total na perspectiva da única glória de Deus. O Padre Brottier vive já na intimidade divina.

Capelão militar

Porventura será temerário imaginar que os anos passados ao serviço da Catedral Monumento tenham pesado sobre o Padre Brottier, esse extraordinário homem de acção, esse sacerdote talhado naturalmente para a vida pastoral?...

A figura do Padre Brottier, homem de escritório ou de salão, por obediência, não se identifica nada com a personalidade que lhe conhecemos. O Padre Brottier está talhado, está preparado para um «apostolado de contacto». A guerra de 14/18 abre-lhe um campo de acção à sua altura. Abundam os testemunhos e anedotas sobre casos e gestos do Padre Brottier com os seus soldados, em terreno descoberto ou nas trincheiras. Será porventura impróprio pensar que ele se sente à vontade nesta situação, em que o risco é o pão de cada dia. e a partilha de sofrimento com os mais pobres é de todas as horas ?

« Sacerdote pastor» o Padre Brottier é- o cem por cento, nesta tragédia que durará 52 semanas. Pela palavra e pelo exemplo, ele reconforta, refaz o moral, estimula as energias, recebe confidências, prepara para a partida definitiva.

Exposto sem cessar, desprezador do perigo, ouve tudo, tudo vê. Apoiado naquilo que sabe, é em nome da caridade que estabelece «pontes entre a tropa e a hierarquia. A sua actividade sacerdotal durante estes anos terríveis exprime-a ele inteiramente nestas palavras dirigidas a seu irmão e cunhada, quando, finda a guerra, lhes confia a Cruz de Capelão Militar:

« Guardai-a com extremo cuidado ! Ela foi testemunha muda da minha vida durante toda a guerra. Esta cruz, quantos lábios moribundos a beijaram ! Recebeu o último suspiro de muitos soldadozinhos. Que de vezes ela tocou os seus peitos esburacados, rasgados, esfarrapados ! Se o cordão desta cruz pudesse destilar todo o sangue em que foi embebido, a água em que o mergulhassem tornar-se-ia escarlate.»

Entretanto, uma citação outorgada ao Padre Brottier, a 29 de Junho de 1918, utiliza termos fora do comum. O Padre Brottier é chamado o «Capelão lendário».

O Padre Brottier sonha com a continuidade do extraordinário espírito de fraternidade nascido no correr da guerra, entre quantos nela participaram. Amadurece a fundação dum grande movimento – União Nacional dos Combatentes. O assunto parece-lhe tão importante que este simples capelão militar, que teria podido criar a «sua» associação confessional de Antigos Combatentes, dá lugar ao sacerdote da frente que quer a União Nacional aberta a todos sem distinção. Não receia meter na cartada os poderes públicos e força, com feliz resultado, a porta de Clemenceau, então Presidente do Conselho. Mais uma vez, é o Amor a força motriz dos grandes desígnios do Padre Brottier. O impacto é tão importante que a União Nacional dos Combatentes agrupará dois milhões de aderentes. Não, o Padre Brottier nunca faz as coisas a meias. Na União Nacional dos Combatentes, como nos outros empreendimentos, é «Tudo ou nada».

Pai dos Órfãos

O Padre Brottier trabalha doze anos em Auteuil, de 1923 a 1936.

Duas preocupações, intimamente ligadas, dominam e orientam a sua acção:

1 - Salvar as crianças mais infelizes e mais pobres;

2 - Associar Teresa de Lisieux estreitamente a esta missão e levar a descobrir, neste ensejo, a sua mensagem de amor.

Quando o Padre Brottier chega a Auteuil, a Obra vive uma situação extremamente difícil. Reina entre o pessoal e entre os rapazes um profundo mal-estar. E, depois, grandes dívidas.

Num primeiro tempo, o Padre Brottier tapa os regos de água, eleva os salários, melhora as condições de vida dos rapazes, tenta acalmar toda a gente, mas não o consegue à primeira. Os membros do Conselho não estimam nada que o Padre Brottier, quinze dias apenas depois da sua chegada, consagre o essencial dos seus esforços a lançar uma subscrição, não para tapar os buracos, mas para construir uma igreja, seja ela em honra de Teresa, que não passa duma Bem-aventurada !

Fora da Obra e mesmo no seio da Congregação do Espírito Santo, a iniciativa parece irracional, desconcertante, roçar o limite das conveniências. Escandaliza alguns amigos da Obra de Auteuil.

Os apelos a favor da subscrição destinada à capela desencadeiam um alude de dons: é o começo da maravilhosa e desconcertante cadeia de amizade que permitirá à Obra de Auteuil desenvolver-se de forma prodigiosa, para salvar uma multidão de crianças, maravilhosa cadeia de amizade, cujos elos continuem a multiplicar-se ainda hoje.

A capela é o detonador... Espalha uma vaga de graças em todos os domínios; torna-se um verdadeiro centro espiritual, confluente de súplicas angustiadas, de gritos de aflição, mas também de reconhecimento, de mensagens de amor.

O Padre Brottier constrói lugares de acolhimento e multiplica as secções profissionais; o 40 da Rua La Fontaine já não lhe basta. Abre casas na região parisiense e na Província. Germina então no seu espírito a grande ideia dos «Órfãos de França... Cria o Lar no Campo, onde, em famílias solícitas, centenas de rapazes aprenderam a arte de cultivar a terra.

Durante doze anos de trabalho apaixonado, o Padre Brottier luta para fazer recuar a miséria. Sensibiliza incessantemente os Amigos de Auteuil, para as suas preocupações e projectos. Recorda-lhes, sem uma pausa, que Teresinha está intimamente ligada a tudo quanto ele empreende a favor dos mais pobres. Escreve milhares e milhares de cartas, em que se revela o seu amor a Deus e aos mais desamparados.

Tem-se dito muitas vezes que o Padre Brottier foi um homem de negócios. É verdade. A herança que deixou é disso espantoso testemunho. Esquecemo-nos, porém, de precisar que se trata de «negócios da Providência». Sim, o Padre Brottier foi o «business-man» do Céu ! Mas os seus triunfos nunca lhe subiram à cabeça. A sua intensa vida interior, sustentada por uma constante intimidade com Deus, mantém-no numa profunda humildade, no esquecimento total de si mesmo. Aí residem as poderosas razões do seu bom êxito.

« Os médicos procuram a origem do meu mal ... se conhecessem todas as misérias que me batem à porta e a minha capacidade em aliviá-las, saberiam o que hoje me dilacera »

É uma das últimas palavras do Padre Brottier.

Multiplicar por dez, praticamente, em doze anos, o número de pequenos recolhidos na Obra não o satisfaz.

A Obra do Padre Brottier não termina com a sua vida. Desenvolve-se de forma inacreditável ! O Padre Marc Duval, seu segundo sucessor, abre dezasseis casas. Hoje, a Obra de Auteuil acolhe perto de 3.500 crianças e adolescentes.

 

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