| Joaquim
Alves Correia
(1886-1951)
Cristo
mandou-nos “lembrar”. “Fazei isto em memória de mim.”
Ele tornou possível que em todo o momento seja verdadeiramente
real a possibilidade de tornar actual a sua vida.
Há muitos dos seguidores de Cristo que se pareceram
bem com Ele. E, de alguma maneira, também a sua vida
se actualiza na história e continua a ser para os
homens de hoje fonte de inspiração. Os grandes homens
da história, os grandes santos continuam a ser marcos
marcando a vida de gerações. Esta afirmação quer ser
feita hoje a respeito do Padre Joaquim Alves Correia.
Viver Aquém e Além
Em 1951, a um de Junho, morria, exilado do seu País,
o Padre Joaquim Alves Correia. Morria concordando
em morrer. “Estou de absoluto acordo com a disposição
do Pai Celeste e pronto a marchar”. (carta de 27-03-51).
O Doente “entregou-se à vontade de Deus, edificando
a comunidade com a sua piedade”. (Arch. Pittsburg,
187; 12-04-51).
O P. Francisco Lopes, biógrafo do Padre Alves Correia,
escreve ao referir-se à sua morte: “Extingue-se o
homem, mas não o eco evangélico das palavras com que
vergastava os que desafiavam a justiça da humanidade,
sorvendo o sangue dos irmãos para matar a sede infrene
que lhes devorava as entranhas desumanas”.
O doutor Braga da Cruz, no prefácio do livro “O Pe.
Joaquim Alves Correia” (editado por Editora Rei dos
Livros”) escreve: “O P. Joaquim Alves Correia foi
uma figura paradigmática do seu tempo e precursora
do nosso, porque viveu na fronteira dos dois, fiel
à tradição, aberto ao futuro. Como sacerdote católico
e missionário, foi homem de Deus e um homem do povo.
Pertence por isso ao património eclesial português
como também ao património democrático nacional. Nessa
dupla qualidade ... deve ser lembrado e louvado”.
Estamos de acordo. A morte dos grandes homens e dos
santos não os extingue, credita-os como pais de gerações,
como luz que abre caminhos novos, como força que garante
ultrapassar as dificuldades, como modelos na descoberta
da verdade, na conquista da justiça, no construir
da paz e no viver do amor.
Era um padre incómodo
Foram poucos os que conheceram no momento próprio
o P. Joaquim Alves Correia. Recordo aquela imagem.
Não é por trás de uma grande árvore que se vê a floresta”.
O P. Alves Correia era grande demais. Porque era grande
demais incomodava. Quem se não dá com a verdade e
com a justiça, quem não defende a dignidade do Homem
e os seus direitos cega-se, embrulha-se e enlameia-se
na sua tacanhez e no esbracejar medroso fere-se a
si próprio e procura que os demais não vivam.
Cristo teve que morrer. O P. Alves Correia teve que
ser exilado. Amar a verdade e a justiça significa
muitas vezes abanar tronos ( de dinheiro, de ideologias
políticas, de estruturas de poder e de estilos de
vida) erguidos em pedestal de barro (leia-se mentira).
Por exemplo. Ensinar português aos de “Leste” não
interessa para muitos da praça social porque deixam
de ser “humildes, submissos, escravos” e aprendem
a reivindicar em português o que lhes pertence - a
sua dignidade. Há quem não tenha interesse que os
imigrantes se legalizem. Como é que depois se lhes
pode ficar com o dinheiro que dizem ser para a “segurança
social” e pagar-lhes salários mais baixos sem as horas
“extra” que fizeram? Se os imigrantes ficam com os
direitos de “gente” é mais difícil explorá-los.
Alves Correia era demasiado “grande” para que no seu
tempo os políticos o pudessem ver! E muitos dos que
viram a sua “grandeza” tinham demasiado apego às coisas
(leia-se cargos, posição social, mando político),
à ordem estabelecida e medo dos que mandavam para
sentirem coragem de o defender. Teve que ser exilado.
A Verdade e a Justiça
“Se o grão de trigo não morrer fica só”. Esta frase
foi dita pelo Outro que também matámos. Muitos acreditamos
na ressurreição. Feliz o homem que consegue acreditar.
Porquê? Porque dá a certeza de que todas as sementes
de bem vão germinar em nós e no Mundo. A verdade,
a justiça e o amor têm força que nada corrói. Se hoje
as não vemos, elas virão e viverão em plenitude. Eu
creio. Vê se também consegues acreditar. Trabalhemos
e esperemos.
Hoje o Padre Alves Correia teria a vida facilitada.
Podia ter dito todas as verdades que disse sem ser
molestado e não teria sido exilado. Bem, talvez, por
decisão própria, fosse Lá dizer que “eles” não são
os patrões do Mundo e os outros países o seu “caixote
do lixo”. Talvez tivesse decidido ir a Estrasburgo
ou Bruxelas gritar que a Europa não pode ser uma “fortaleza”
sem portas de entrada; ou talvez tivesse ido a Angola
pregar que a guerra não acaba com a guerra. E na sua
comunidade espiritana podia ir à cozinha tranquilamente
fazer as sandes para os pobres que tocam à porta.
Cinquenta anos depois somos capazes de sentir a presença
do P. Joaquim Alves Correia. Ele é “um dos pais fundadores
da democracia portuguesa” (Manuel Braga da Cruz);
ele é “combatente intrépido pela justiça total...
crente inabalável na força do Espírito Santo” (Anselmo
Borges). Também hoje os Missionários do Espírito Santo,
a cuja família pertence, o têm como fonte inspiradora
dos seus gestos de solidariedade e modelo de luta
pela justiça e pela paz. O CEPAC
- Centro Padre Alves Correia, que acolhe mais
de dois mil imigrantes/ano, é um desses pequenos gestos.
O P. Joaquim Alves Correia é um homem de hoje que
morreu há 50 anos.
Veríssimo Teles
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1886-05-08: Nasce em
Aguiar de Sousa, Paredes.
Diocese do Porto.
1906-10-16: Profissão Religiosa.
1910-10-28:
Ordenação
Sacerdotal.
1911: Missionário na Nigéria
1918: Missa dos Pequeninos
1922: Procurador das Missões.
1922: Civilizando Angola e Congo
1923: Evangelizadores do Trabalho.
1932: Superior e Professor em Viana do Castelo.
1936: Missões Católicas Portuguesas
1936: A Dilatação da Fé no Império Português (02 vol).
1941: O Cristianismo e a Mensagem Evangélica
1945: Exilado nos USA.
1941: Vida Mais Alta
1968: De que espírito somos?
1951-06-01 - Faleceu nos USA |
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Dos Escritos do
P. Alves Correia
"A
Oração é uma elevação a Deus: uma conversa de espírito
a Espírito: Pai é Deus e a conversação é o sustento
das relações do filho com o Pai"
"Antes
de perder a justiça e a bondade, consenti em ser perseguido.
Perseguir é que é desgraça. Sofrer pela justiça, chorar
provisoriamente, para ser bom, isso é que é bem-aventurança.
A única felicidade, a única ventura firme é a mansa
bondade"
"A
alma da caridade é a mentalidade fraterna"
"A
Igreja, nós os filhos de Deus, temos obrigação expressa
de propagar o Evangelho, até ele ser conhecido em
toda a terra" |