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P. Tiago Laval foi médico e pároco de aldeia, antes
de se tornar missionário.
Nasceu em França. Filho
de um rico fazendeiro e presidente da edilidade local,
perdeu a mão aos 7 anos.
Formou-se brilhantemente
em medicina, na célebre universidade de Sorbona, Paris.
Assíduo frequentador das reuniões mundanas e com futuro
social promissor, acabou por deixar tudo, para se
fazer sacerdote.
Foi o primeiro missionário
da Congregação fundada pelo Padre Libermann. Foi enviado
para a ilha Maurícia. Quando Laval ali chegou ainda
existia a escravatura. À sua chegada, o P. Laval encontrou
uma situação religiosa quase a zero, sobretudo entre
os negros africanos, aos quais se dedicou.
O seu grande combate,
que Ihe granjeou muitas inimizades por parte dos colonos,
foi a libertação, dignificação e evangelização dos
escravos.
Homem de profunda comunhão
com Deus. Consciente que só com um bom número de cristãos
comprometidos é possível desenvolver um trabalho pastoral,
rodeia-se de leigos formados por si a quem dá uma
formação continuada. Pouco a pouco conquistou a simpatia
de todos e começou a construir capelas e igrejas por
toda a ilha.
Na altura da sua morte
em 9 de Setembro de 1864, de um total de 140 mil habitantes,
cerca de 40 mil participaram no seu funeral! Hoje,
é considerado um "herói nacional" e o dia
da sua morte é o Dia Nacional da Ilha Mauricia. Foi
beatificado pelo Papa João Paulo II, em 29 de Abril
de 1979. 0 seu túmulo é visitado anualmente por 150
mil pessoas, sem diferença de cor ou religião. todos
o veneram como Pai e Amigo dos pobres e a sua memória
tem contribuído muito para o ambiente de tolerância
e diálogo existente no mosaico de raças e religiões,
que é a Ilha Maurícia.
Médico
Pensa ser padre, mas
não Ihe desgosta a carreira de médico. Junto do tio
padre encontrou sempre a maior amizade e a maior compreensão.
Será ainda ele que o esclarecerá, numa abertura de
alma digna de admiração: «São precisos muitos bons
padres, mas um médico, que seja bom cristão, pode
fazer muito bem.»
Laval segue, pois, a
medicina. Reside em Paris, em casa de um médico onde
encontra, com outros companheiros, acolhimento familiar
e ambiente cristão. Contacta frequentemente com o
antigo companheiro da escola paroquial, Miguel Coquerel,
agora teólogo no Seminário de S. Sulpício, em Paris.
Em Setembro de 1830,
já médico, abre consultório em Santo André, não longe
da terra natal.
Instala-se na grandeza,
no fausto. Mesmo no luxo. Mundano. Cavaleiro brioso.
Amigo da dança e dos divertimentos. Esquece-se, quase
por completo, dos seus deveres de cristão. Serão momentos
de negligência religiosa.
Vive infeliz e numa frustração
de não-realizado. Sente que Deus o chama para outras
ocupações e, como que para dissipar tais pensamentos,
leva uma vida demasiadamente ocupada com trabalho,
desponto e visitas a doentes. Tanto mais que não tem
mãos a medir: como nada leva pelas consultas feitas
aos pobres, e até Ihes deixa alguma esmola, fruto
do pagamento das consultas feitas aos ricos, é constantemente
solicitado.
Ele, mesmo revelará a
seus parentes não sentir atracção pela riqueza. Nem
pelo casamento. Por outro lado, continuava cada vez
menos feliz, cada vez menos realizado.
Em 1834 vamos encontrá-lo
a exercer clínica em Ivry-la-Bataille, interiormente
resolvido a conviver com um médico nada religioso,
na intenção de abafar—ou realizar —a insatisfação
humana e religiosa em que vivia. Mas será a família
Simon que o albergará e o influenciará pelo seu viver
familiar e apostólico.
Fruto deste convívio
inesperado e não procurado — pequeno pormenor como
tantos outros na vida de Laval — virá ao de cima a
antiga formação religiosa e espiritual. Pouco a pouco
retoma a prática religiosa, o gosto pelas leituras
espirituais, de tal modo que no ano seguinte, 1835,
era «um convertido», um cristão fervoroso que vivia
em paz de consciência, tentando descobrir a vontade
de Deus a seu respeito através dos pequenos nadas
do dia-a-dia.
Pároco
Após a sua formação teológica
será ordenado sacerdote a 22 de Dezembro de 1838.
A 2 de Fevereiro do ano seguinte entrará oficialmente
na paróquia de Pinterville, a 30 Kms de Rouen, na
Normandia.
Pequena aldeia de 483
habitantes, que nela passam a noite, como em grande
«dormitório citadino», pois que o dia é vivido nas
fábricas da região.
Gente sem hábitos, de
prática religiosa, mas gostando de ter no seu meio
um padre, que apenas ocupavam para baptismos, casamentos
e enterros. Laval dedica-se a eles, discretamente,
interiormente convencido, como o Cura de Ars, que
tinha de ser santo para santificar os paroquianos.
Como estes o não ocupam
muito, gasta ele, parte do dia e da noite a adorar
o seu Deus; no princípio, em frente do altar. Depois,
quase escondido, por trás do mesmo, estendido sobre
o soalho frio e húmido.
Acolhe e socorre os pobres
com o que tem à sua disposição e quase chega a «tirá-lo
da boca» para alimentar quantos famintos lhe pedem
pão e agasalho. A criada bem o «aconselha», mas ele
herdou, na verdade, as «mãos rotas» da sua saudosa
mãe.
Visita diariamente os
doentes, passando horas esquecidas a fazer-Ihes companhia,
a explicar-lhes o catecismo, a rezar com eles. Antes
de sair, deixa, sorrateiramente, algum alimento ou
dinheiro.
Ao longo da semana dá
catequese para os mais novos das 19.30 até às 21 horas.
Depois até às 22 h. para os que já trabalham nas fábricas.
Em moldes de catequese
de perseverança, passa as tardes de domingo com a
criançada, cantando, rezando, lendo-lhos a bíblia
e a vida dos santos, brincando e passeando. Eram horas
felizes que passavam depressa demais, no dizer dos
beneficiados.
A meio do ano escolar,
o professor primário é transferido. Outro não vem.
E será ainda o padre Laval que, na residência paroquial,
transformada em escola, tomará as crianças a seu cuidado.
O confessionário é outro
lagar bem aproveitado pelo Padre Laval. Aí conversa
e anima as crianças que frequentam a catequese. Ao
pequeno grupo de adultos que se confessam regularmente,
vai formando solidamente na vida cristã.
A todos que com ele contactam
- pequenos ou grandes - infunde o gosto da oração,
o desejo da comunhão, o amor à eucaristia, a devoção
filial a Maria.
Duro e mesmo austero
para si mesmo - o cilicio, o jejum diário, o trabalho
exaustivo e constante, concedia ao corpo apenas o
que fosse absolutamente indispensável à sua sobrevivência.
Para os outros nada faltava. Tudo era bom. Tudo era
fartura. Tudo era requinte. Nada impunha. A todos
acolhia e recebia como eles eram. Se mudanças importantes
conseguia junto dos que com ele conviviam, era apenas
pelo seu exemplo, pela sua palavra cristã e sacerdotal,
dita com toda a simplicidade e na maior discrição.
Evangelização
dos Negros
Quando em 1835
foi decretada a abolição da escravatura - nos tratados
e nos comunicados oficiais e internacionais - havia
na ilha Maurícia cerca de 60.000 escravos. Os antigos
senhores mostravam-se reticentes em acordar a total
libertação dos seus antigos escravos. Estava em jogo
a sua própria libertação e independência económica
e social. Por seu lado, os antigos escravos não estavam
preparados para assumir os seus novos direitos.
Laval chega à ilha em
15 de Setembro de 1841. Pouco depois escreverá aos
seus superiores religiosos, transmitindo-lhes as suas
primeiras impressões e informando-os do seu campo
de apostolado: por ,toda a ilha havia a corrupção;
a libertinagem dos costumes, dificilmente explicáveis.
Ele era o único a ocupar-se de quase 60.000 negros
vivendo na ilha. Talvez metade fossem baptizados,
mas viviam de forma verdadeiramente pagã, como os
outros. Uniam-se em casamento e separavam-se várias
vezes na vida. Eram dados à embriaguez. A maior parte
das jovens negras estavam pervertidas pelos antigos
senhores e pelos jovens brancos. Os nascidos na ilha—crioulos—estavam
totalmente corrompidos. Para começar a sua tarefa
apostólica, iria dirigir-se a alguns negros originários
da ilha Maurícia e de Moçambique.
Laval projecta o seu
trabalho apostólico junto dos negros. Em total indiferença
por parte dos outros párocos: eles não estavam encarregados
de os evangelizar. Com «todas as bênçãos» do Bispo.
Com todos os olhos «brancos e crioulos» postos e pespegados
sobre Laval e sobre os negros que lhe estavam pastoralmente
confiados.
No primeiro domingo que
Laval passa na ilha celebra missa em Port-Louis e
anuncia, então, sem grandes alardes, que vai dar início
à obra dos negros.
Discretamente um ou outro
dos assistentes mal disfarçou um sorriso irónico.
Depois, no adro, ouvia-se dizer, aqui e além, entre
o grupo que saía da igreja: Tempo perdido! Isso passa-lhe!
Zelo de recém-chegado!
Os poucos negros que
- lá ao fundo, separados por pesada grade metálica
- estavam presentes à missa, não atingiram o significado
das palavras proferidas por Laval. Finda a cerimónia
litúrgica, saíram. Apressadamente dirigiram-se para
os seus locais de trabalho não fossem os patrões fazer-lhes
um sermão, mais duro e mais longo que o de Laval durante
a missa.
Na tarde daquele domingo,
e ao longo da semana que vai começar, Laval ocupará
todo o seu tempo na oração, na meditação. Diante do
altar. Por trás dele. Como fazia na paróquia de Pinterville,
em França. Laval é, essencialmente e por inclinação
natural, um místico.
Deixando o seu quarto
pessoal na residência paroquial, instala-se numa velha,
inestética e inconfortável «barraca» de madeira. Pensa.
Planeia. Medita. Reza. Espera, pelo momento da graça,
que não vai tardar.
Os criados que trabalhavam
na residência paroquial e na igreja estavam mesmo
à mão de semear. Para quê ir mais longe? No cruzar
dos corredores, Laval dirige-Ihes uma palavra amiga,
respeitadora, sem pressas. Eles nem acreditam no que
vêem. Estavam habituados a ser abordados abruptamente,
exigentemente, senhorialmente.
«Entregam-se» totalmente
a Laval. O amor pelas suas pessoas fez cair todas
as barreiras rácicas, culturais, sociais, de pecado
e miséria moral. Laval era um amigo. Um verdadeiro
amigo.
Terminados os trabalhos
domésticos, esses negros abeiram-se de Laval na sua
pequena e pobre residência. Começa por os pôr à vontade.
Faz-se um deles. Com toda a naturalidade. Sem fingimento.
Levado pelo amor e pelo respeito às suas pessoas.
No segundo encontro que
tiveram com Laval - para não dizermos no primeiro
- este anuncia-lhe explicitamente a Cristo como único
Salvador. Sem rodeios literários. Sem camuflagens
humanas e premeditadas. Numa linguagem simples e acessível.
Em toda a plenitude das exigências que a Boa Nova
comporta. Propõe-lhes uma nova vida, vida de filhos
e amigos de Deus, através de uma conversão radical
das mentes, dos sentimentos, das vidas. Eram poucos
os ouvintes. Mas todos atentos e interessados. Todos
fascinados pela pessoa simpaticamente amiga de Laval.
Pela sua palavra. Pela sua vida no meio deles. Instintivamente
aceitam-no como amigo e como mensageiro de Cristo.
A semente caíra, na verdade,
em boa terra. Aos poucos, Laval ia sendo conhecido
pela sua verdadeira amizade e respeito pelas pessoas.
De unidade em unidade. Hoje um. Amanhã outro. A pequena
sala de Laval começa a ser pequena. É que há sempre
um colega de trabalho, um amigo da mesma etnia, que,
participa, à noite na «visita», na «conversa» com
Laval.
Esta actividade apostólica
inicial é premeditadamente muito limitada. Laval não
quer atingir, inicialmente, as multidões. Procura
as unidades. Por conta-gotas. Sacrifica a quantidade
à qualidade. Dirige-se apenas aos adultos, como que
ignorando, ou esquecendo as crianças, os jovens. Por
agora. Mais tarde chegará também a sua hora. |