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O morto que vive

Aristides Neiva
aristidesneiva@espiritanos

É provável que algum dos participantes se lhe tenha referido. Afinal, estiveram reunidos durante três dias na mesma cidade onde o padre António Vieira cresceu, foi alfabetizado e formado para a mestria da palavra. Estiveram na cidade, S. Salvador da Baía, onde o velho jesuíta aprendeu a medir o peso das palavras e a construir frases como quem desembainha espadas. Talvez algum dos participantes tenha citado a conhecida frase do pregador: “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. São apenas suposições, porque disso não rezam as crónicas.

O que sabemos é que foi ali, em S. Salvador, que no final de Fevereiro se reuniram representantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste para debaterem a Educação de Jovens e Adultos nestes países. Um esforço de cooperação Sul/Sul. E foi ali, na Baía onde há quase 400 anos ecoou a voz do mestre da língua portuguesa, que se divulgou o estado da educação entre os povos que falam a mesma língua de António Vieira: o Brasil tem 16 milhões analfabetos com mais de 15 anos; em Moçambique, os que não lêem nem escrevem chegam a 52% da população; a Guiné-Bissau tem um índice de analfabetismo médio de 63%; no arquipélago de Cabo Verde, o problema atinge 25% da população; Angola apresenta 58,3% da população analfabeta; São Tomé e Príncipe, 20%; em Timor Leste, dos 800 mil habitantes, 40% não sabem ler nem escrever. Indicadores que dizem muito do pouco que está feito em matéria de educação e desenvolvimento.

Felizmente para todos, o pregador já não anda nem por lá nem por cá. Ou ainda teríamos de ouvir de novo, como os habitantes de Lisboa em 1655, o Sermão do Bom Ladrão: “Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres”.

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Publicado em www.espiritanos.org a 2/28/2008 5:44:42 PM.

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